
“Com 80 anos, já deu o tempo.”
Ouvi essa frase recentemente, e ela me incomodou bastante.
O que me chamou a atenção não foi uma avaliação sobre as condições de uma pessoa para exercer determinada função. Foi a certeza de que uma idade, por si só, bastaria para encerrar a discussão.
Não se trata de considerar pessoas mais velhas automaticamente capazes, preparadas ou acima de qualquer questionamento. Saúde, discernimento e capacidade de tomar decisões são questões legítimas quando avaliamos quem deve assumir uma responsabilidade.
Mas há uma diferença entre avaliar essas condições e concluir que alguém não serve porque chegou a determinada idade.
Uma coisa é perguntar: “Essa pessoa tem condições de exercer essa função?”
Outra é decidir: “Essa pessoa já viveu o suficiente. Agora precisa sair.”
“Já deu o tempo dele.”
Mas quem determina quando o tempo de alguém acabou?
Li recentemente um texto publicado no Medium, na publicação ILLUMINATION, chamado The Darker Side of Growing Old, em tradução livre, “O lado mais sombrio do envelhecimento”. O relato aborda perdas de autonomia, de vínculos e de referências que antes sustentavam a identidade de uma pessoa.
O que mais me sensibilizou foi pensar que algumas perdas não começam no corpo. Começam no olhar do outro.
Na minha experiência, a sensação de invisibilidade pode surgir mesmo quando ainda trabalhamos, aprendemos e participamos ativamente da vida.
Tenho 63 anos e continuo trabalhando diretamente com pessoas na faixa dos 20 e poucos anos. Tenho uma personalidade expansiva, embora me reconheça como introvertida. Talvez esse conjunto faça com que eu sinta menos algumas dessas barreiras.
Ainda assim, começo a entender coisas que meu marido dizia.
Ele era 22 anos mais velho que eu e já faleceu. Hoje, algumas de suas observações encontram em mim uma compreensão que antes não tinha. Não porque me faltasse disposição para ouvi-lo, mas porque há experiências que ganham outra dimensão quando nos atravessam.
É uma sensação difícil de explicar: como se envelhecer nos tornasse, aos poucos, menos autorizados a ocupar espaço.
Como se fosse uma doença. Não contagiosa, mas ainda assim tratada como algo que nos separa dos demais.
Quando eu ainda tinha menos de 50 anos, ouvi de alguém da família essa frase que jamais esqueci.
A pessoa se referia a pessoas mais velhas que, em sua avaliação, atrapalhavam a vida dos mais jovens. Disse que deveriam sair do caminho, ir para uma casa de repouso ou um asilo e deixar viver quem ainda precisava viver.
O que me feriu não foi a menção a uma instituição de cuidado. Precisar de cuidado não deveria ser motivo de vergonha, e uma instituição pode ser uma escolha ou uma necessidade.
Foi a ideia de que algumas pessoas ainda tinham uma vida pela frente, enquanto outras já não tinham uma vida que merecesse consideração.
Como se, depois de determinada idade, continuar desejando, escolhendo ou discordando fosse uma inconveniência.
Pessoas mais velhas podem ser controladoras, injustas ou desrespeitosas. Pessoas jovens também. Comportamentos precisam ser questionados pelo que são.
Defender o direito de uma pessoa jovem conduzir a própria vida não exige defender o desaparecimento de uma pessoa mais velha.
Estabelecer limites não é o mesmo que retirar de alguém o direito de pertencer.
Existe um nome para o uso da idade como fundamento de estereótipos, preconceitos e discriminação: etarismo. A Organização Mundial da Saúde descreve esse fenômeno a partir de como pensamos, sentimos e agimos em relação aos outros (e a nós mesmos) com base na idade.
Penso nisso quando a idade encerra uma conversa que deveria começar pela escuta.
Quando alguém deixa de ser consultado sobre uma decisão que diz respeito à própria vida. Quando sua opinião é descartada antes de ser compreendida. Quando a possibilidade de aprender ou contribuir é recusada sem que ninguém se dê ao trabalho de conhecer suas condições.
Nem sempre é preciso dizer explicitamente “você não tem mais lugar aqui”. Às vezes, basta deixar de perguntar, de convidar, de considerar.
É essa retirada silenciosa de lugar que me preocupa.
Não quero negar as mudanças do envelhecimento. Quero questionar o momento em que a expectativa sobre essas mudanças passa a valer mais do que a pessoa que está diante de nós.
Não acredito que envelhecer transforme alguém automaticamente em uma pessoa sábia.
Ter vivido mais não nos torna necessariamente melhores, mais generosos ou mais preparados. A experiência pode ser elaborada, questionada e transformada em aprendizado. Também pode ser usada apenas para repetir certezas.
Mas seria igualmente equivocado tratá-la como algo sem valor.
Minha trajetória não me dá razão em tudo. Ela me dá uma perspectiva. Assim como a experiência de uma pessoa mais jovem oferece perspectivas que eu não tenho.
Não precisamos escolher qual geração merece existir na conversa.
A OMS observa que não existe uma pessoa idosa típica: pessoas da mesma idade podem apresentar condições físicas e mentais muito diferentes. As perdas de capacidade associadas ao envelhecimento têm uma relação apenas limitada com a idade cronológica.
Por isso, não quero defender que alguém deva ocupar uma função porque é mais velho. Quero questionar a ideia de que deva ser descartado simplesmente por ser.
Esse argumento precisa ir além da defesa de quem continua trabalhando.
Porque seria fácil reivindicar meu lugar dizendo que ainda produzo, acompanho tecnologias, ensino e convivo com pessoas jovens.
Tudo isso faz parte de mim. Mas não pode ser a condição para que eu mereça respeito.
E se um dia eu precisar de ajuda?
Se minha fala ficar mais lenta? Se eu não conseguir acompanhar uma conversa com a mesma facilidade? Se precisar que alguém repita uma informação?
Não quero que minha dignidade dependa de conseguir demonstrar, indefinidamente, que continuo funcionando como antes.
Nem toda pessoa poderá continuar exercendo as mesmas atividades. Reconhecer isso é diferente de concluir que sua presença perdeu valor.
O cuidado pode precisar mudar. As responsabilidades podem precisar ser revistas. O direito de ser ouvido e considerado, não.
É também por isso que o texto do Medium me tocou. Ele não fala apenas de encontrar atividades para preencher os dias. Fala de reconhecer alguém quando aquilo que antes organizava sua vida começa a desaparecer.
Há uma diferença entre oferecer alguma coisa para uma pessoa fazer e se interessar por quem ela é.
Quero acreditar que conseguimos oferecer as duas coisas.
Quero que pessoas jovens tenham oportunidades, autonomia e participação nas decisões. Não vejo nisso uma ameaça ao meu lugar.
O que recuso é a ideia de que a renovação só possa acontecer pela desqualificação de quem chegou antes.
Dar espaço pode significar compartilhar decisões, transmitir conhecimentos, aprender outras formas de fazer e reconhecer quando uma responsabilidade precisa mudar de mãos.
Nada disso exige tratar uma geração como obstáculo.
No trabalho, essa diferença importa. Quero que questionem minhas ideias, meus métodos e minhas entregas. Quero continuar aprendendo e ser avaliada pelo que faço.
Não quero que a minha idade responda por mim antes que eu possa abrir a boca.
E, fora do trabalho, quero continuar podendo desejar coisas que não precisam ser úteis a ninguém: conhecer um lugar, começar um projeto, mudar de opinião, fazer novos amigos ou simplesmente escolher como passar o meu dia.
Minha vida não se resume ao que ainda posso entregar.
Aquela frase me marcou porque reconheci nela um julgamento que pode alcançar qualquer um de nós.
“Com essa idade, já deu.”
Hoje, esse julgamento pode ser dirigido a alguém distante. Em outro momento, pode ser dirigido a mim: ao meu trabalho, aos meus projetos, às escolhas que ainda quero fazer.
Não espero que envelhecer me coloque acima de críticas. Não quero ser poupada de discordâncias ou responsabilidades.
Quero apenas que a crítica encontre uma pessoa, não um número.
E quero que, quando eu precisar de ajuda, essa ajuda não venha acompanhada da ideia de que passei a atrapalhar.
Aos 63 anos, minha vida não está esperando terminar para que a de outra pessoa possa começar.
Nós estamos vivendo ao mesmo tempo.
Este ensaio foi escrito por mim, com a ajuda de ferramentas de edição de IA.